Criei um novo mascote para o meu projeto de tirinhas

Criei um novo mascote para o meu projeto de tirinhas e cartuns. É uma pequena lampadinha, pequena simpática, e vou explicar de onde veio a ideia de usar ela como mascote.

Luminures mascote

Queria definir algum mascote ou símbolo para esse meu projeto com tiras, que não fosse necessariamente um avatar da minha pessoa. Eu quase não trabalho com personagens fixos nas minhas tiras, então nunca fez muito sentido elencar um personagem específico para me representar ou virar o símbolo desse projeto.

As minhas tirinhas e cartuns nascem, na maioria das vezes, muito mais de ideias aleatórias, pensamentos soltos e observações do cotidiano do que de algo pensado previamente para um personagem.

Eu vejo meu trabalho muito próximo do que faz o Fernando Gonsales em Níquel Náusea. Apesar da tira de Fernando carregar o nome de um personagem icônico, ele quase não tem aparecido ultimamente. As tiras do Níquel Náusea tem funcionado muito mais como uma coletânea pequenas esquetes sobre temas diversos, sem ênfase tanto em personagens.

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Tirinha de Fernando Gonsales

Acho que essa forma do Fernando produzir atualmente conversa bastante com o jeito que eu produzo. Pra mim, a ideia, a sacada, sempre foi mais importante do que os personagens em si. Já falei da minha dificuldade de criar com personagens aqui.

Muitas vezes eu anoto ideias soltas, e só depois vejo se elas se encaixam em algum personagem que eu já tenho. E, em muitos casos, elas nem precisam se encaixar em ninguém. A ideia já se sustenta sozinha. Então, no fundo, o cerne desse meu projeto com as tiras são as ideias, não os personagens.

Por isso a escolha da lampadinha como mascote. Ela não é exatamente um personagem das minhas tirinhas, no sentido clássico. Ela é mais um símbolo da ideia em si, que dá vida as minhas tirinhas. Da faísca, do estalo, daquela luz que acende de repente e vira uma tira ou um cartum. Ela representa melhor o espírito do projeto do que qualquer personagem fixo poderia representar.

E de onde vem esse nome, Luminures?

É simples. É uma palavra que eu subverti. Ela vem da palavra Iluminuras. As iluminuras eram ilustrações usadas para decorar manuscritos medievais, muito comuns em textos sacros, normalmente feitas por monges copistas que tinham habilidade com pintura e desenho.

Esses ornamentos, todos pintados à mão, deixavam os manuscritos com uma riqueza gráfica impressionante, e havia também toda aquela ideia religiosa de enaltecer a palavra divina com esses ornamentos, mas não é nisso que quero me aprofundar aqui.

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Iluminura medieval

E isso tem tudo a ver com desenho e ilustração. Os iluminadores de outrora são, de certa forma, os ilustradores de hoje, e eu sou o ilustrador de hoje (pelo menos quando tenho a oportunidade de ser).

Mas o que realmente me chamou a atenção nessa questão das iluminuras foi outra coisa.

Ao pesquisar imagens dessas iluminuras medievais, me deparei com um monte de ilustrações completamente cômicas, beirando o besteirol. Homens lutando com caramujos gigantes, figuras com as cabeças a tira colo indo batalhar, coelhos guerreiros e outras bizarrices difíceis até de descrever, tamanha esquisitice que se é. Achei tudo aquilo muito divertido.

Iluminura Medieval

Fico imaginando os monges mergulhados em rotinas extenuantes e monótonas, copiando manuscrito atrás de manuscrito. Em algum momento o tédio devia bater forte e, para dar uma arejada na mente, eles começavam a rabiscar qualquer coisa nas margens só para se divertir, fazer graça e passar o tempo. Não sei o significado real de muitas daquelas imagens. Pode até haver simbolismos profundos ali, mas isso não é o ponto agora.

O que me pegou foi essa ideia da iluminura não apenas como algo para ornamentar ou explicar um texto, mas também como um espaço de humor, de escape, de brincadeira. E de ver essa ideia do humor como uma ferramenta para deixar tudo um pouco mais leve. O fardo da vida, a austeridade, tudo isso pode ficar um pouco mais divertido. A vida fica mais tragável, mais suportável.

E isso tem muito a ver com o meu propósito com as tiras: deixar a vida um pouco mais leve, explorar o lúdico de maneira mais descontraída, quase como um refúgio desse mundo caótico. Porque a vida, com todos os seus desafios, pode ser um tanto extenuante e difícil. Mas o bom humor pode tornar a vida mais tolerável e divertida.

Saber que, de repente, as minhas tiras possam trazer um sorriso, ainda que um riso interno, e talvez melhorar o dia de uma pessoa, é algo recompensador e também me deixa alegre.

Por isso quis usar algo relacionado a esse aspecto do humor ligado às iluminuras. Não sou cristão nem nada do tipo. Minha inclinação espiritual vai muito mais para tradições orientais, como o Yoga e o Budismo. Ainda assim, gostei do termo justamente por causa desse humor meio escondido, quase clandestino, que aparecia nas bordas desses manuscritos.

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Logotipo que criei para a série

Iluminura vem do latim illuminare, que significa iluminar, clarear, tornar visível, formado por in- (em, para dentro) + lumen (luz).

Ou seja, aquilo que dá luz, que clareia. Isso nos leva de volta à lampadinha lá do começo, que tem tudo a ver com a ideia de ter ideias. E para criar um terreno propício para a germinação de ideias, é ideal que a mente esteja mais clara e arejada, aberta a esses lampejos, a esses flashes de insight. Até as próprias palavras lampejo e flash têm relação com luz.

E luz tem tudo a ver com lâmpada, e lâmpada tem tudo a ver com ideia, já que a lâmpada é meio que o símbolo universal para representar a ideia de ter ideias. Nada mais coerente, então, para esse meu projeto de tirinhas que é muito focado em ideias, do que usar esse símbolo clássico da lâmpada e transformá-lo em mascote.

Gosto de pensar nos Luminures como pequenos seres que ficam perambulando por aí até resolver pousar na mente de alguém e acender alguma luz na cabeça de alguém incutindo-lhe ideias, se são boas ou não vai depender muito.

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Outros Luminures (talvez explore esses personagens em algum momento)

Também escolhi usar esse nome para as tiras em vez do meu próprio nome porque sinto a necessidade de descolar um pouco esse projeto da minha pessoa de forma muito direta.

Não é uma negação do meu nome, pois o meu nome tá lá na tira como minha assinatura (que aliás é outra coisa que preciso desenvolver de forma mais personalizada). É mais uma questão de organização mesmo. Como eu não faço só tirinhas, mas também ilustração, design e outras coisas, usar meu nome exclusivamente para o meu projeto de tiras acaba me associando quase exclusivamente a esse projeto. As tiras parecem ocupar tudo, mesmo não sendo tudo o que eu faço.

Separar os projetos me parece mais organizado. Cada coisa no seu lugar, cada trabalho com sua própria identidade. Isso me dá mais liberdade para criar, sem a sensação de que tudo precisa caber dentro de um mesmo rótulo.


Achados:

Monument Valley (I, II e III)
É uma série de jogos de puzzle (quebra-cabeças) em que você está em um mundo meio onírico e precisa ir do ponto A até o ponto B, manipulando o cenário para criar caminhos possíveis para que o seu personagem chegue ao destino.

É um jogo com visual minimalista, com visual “simples”, mas com uma direção de arte belíssima, e carrega um tom de calma e conforto, embalado por uma trilha sonora que até hoje continua nas minhas playlists de foco, de tão boa que é.

Joguei no celular porque estava disponível na assinatura da Netflix, mas dá pra achar fácil por aí por menos de 10 pila.


Por enquanto é isso

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