Da cópia à criação – Minha Jornada pelo Desenho

A cena é familiar para muita gente: você está no banco de um ônibus, trem ou metrô, e do nada aparece alguém que se espalha todo, abrindo as pernas num ângulo quase 180º, ocupando não só o espaço dele, mas invadindo descaradamente o do vizinho. A vítima fica espremida, desconfortável, e com uma sensação de indignação silenciosa.

Pois bem, eu, como recém-designer não mal assumido, pensei: “o que um designer diria numa situação dessas?”.

Daí veio o trocadilho com a palavra “kerning”, que na linguagem do design gráfico se trata justamente o espaçamento entre as letras. Para que a leitura seja agradável, precisa haver equilíbrio no espaço entre cada letra; da mesma forma, para que duas pessoas se acomodem num banco coletivo, é preciso respeitar um espaçamento mínimo das pernas.

Aí está a piada, simples, direta, talvez não para todo mundo (aliás só designer e afins entende essa), mas que me divertiu. Se ficou engraçada ou não, não sei. Eu nunca tenho certeza se algo vai funcionar ou não. O que sei é que, sendo eu mesmo o público-alvo, já me satisfiz em rir dela.

Essa foi a primeira tirinha que criei com a intenção de publicar na internet.

Resolvi explicar aqui o raciocínio por trás dela, mesmo sabendo que “piada não se explica”, e quando a gente precisa explicar demais, ou a piada falhou, ou falamos pra pessoa errada. Nesse caso, a graça só funciona para uma parcela específica: quem já viveu tanto o incômodo no transporte público quanto conhece o termo “kerning”.

Dada essa introdução, queria falar na verdade sobre outro assunto: quero discutir sobre DESENHO.

Como vocês podem notar, meu desenho nessa tirinha não é nem de longe uma obra renascentista. Para ficar mais adequado ao contexto do cartunismo, também não é algo à la Quino, que é um artista incrível, mestre na arte dos cartuns, e que tem um traço que considero maravilhoso.

Cartum maravilhoso do Quino

Não me acho um grande desenhista, mas, olhando para trás, consigo perceber claramente o quanto meu desenho evoluiu ao longo do tempo para algo que me agrada, e isso me deixa um tanto satisfeito.

Eu era um bom copiador

Na infância e depois na adolescência, eu desenhava bastante, mas eu era relativamente bom mesmo só em copiar desenhos de outras pessoas, e não em criar algo realmente autoral. Era aquela coisa de toda criança ou adolescente: passar horas desenhando seus personagens favoritos, reproduzindo o que via nas revistas, quadrinhos ou na TV.

Por ter essa facilidade em reproduzir outros desenhos, eu acabava achando que sabia desenhar de verdade, sem perceber que havia uma grande diferença entre saber copiar e saber criar algo próprio, autoral.

Desenhos da adolescência. Muita coisa era cópias de coisas de revista. Às vezes eu copiava a pose e mudava algumas coisas, cabelo, rosto, roupas ou algo do tipo.
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Quem aí lembra do comercial faz um 21 com a Ana Paula Arósio

Só muitos anos depois percebi que existe uma grande diferença entre saber reproduzir e saber desenhar de verdade, entendo os fundamentos do desenho (linhas, formas, composição, anatomia, luz e sombra). E, mais do que isso, sabendo manipular esses fundamentos para poder se expressar de forma inventiva ou, pelo menos, o mais próximo disso.

Mesmo quando, na adolescência, tentei criar algo mais autoral, como minhas primeiras tirinhas na adolescência, sempre sentia dificuldade de produzir desenhos que viessem do meu próprio repertório e “estilo”, criar personagens e cenários era coisa sofrida. Era mais fácil recorrer à cópia de outros desenhos, objetos, personagens, do que confiar totalmente na minha capacidade de criar cenas.

Uma das minhas tentativas de fazer tiras
Algumas das minhas tentativas de criar personagens!

Entrando na faculdade de Design/Animação

Mais tarde, quando entrei na faculdade, resolvi ingressar no curso do Design na Universidade Federal de Santa Catarina, e no curso era possível escolher às áreas de especialização dentro da grade de graduação (produto, branding, editorial, animação, etc.), e queria me especializar em animação, principalmente animação 2D, que era o que realmente me encantava na época.

Mas, mesmo sendo uma área pela qual era apaixonado foi uma escolha difícil. Eu me sentia inseguro com meu traço e acabava me comparando com colegas que desenhavam com facilidade impressionante, o que só reforçava meu sentimento de inadequação. Fora que acabei não gostando do processo de animar em si, apesar de apreciar muito a Arte da animação, e tudo que gira em torno dela.

O que, anos mais tarde, eu percebi é que me faltava um entendimento mais profundo dos fundamentos do desenho, e também bastante kilometragem de prática, acabava desenhando muito pouco para conseguir de fato me desenvolver, então acabava ficando travado.

Por causa dessa lacuna, e pela frustração, acabei me envolvendo em outros projetos dentro do curso que não eram de animação, mas que tinham relação com Design Gráfico, Cinema e Fotografia.

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Aí estou eu na disciplina de Fotografia Cinematográfica

E, para minha surpresa, essas experiências se mostraram extremamente proveitosas mais tarde, me ajudando a entender melhor composição, narrativa visual e percepção estética, conhecimento que, mesmo que indiretamente, voltariam a influenciar meu desenho.

Depois de sair da faculdade (por motivos que não convém detalhar aqui) percebi que, mesmo sem ter me formado, já tinha uma base boa para atuar com Design e Fotografia. Com isso, comecei a trabalhar em freelas nessas áreas, o que me deu alguma independência e experiência prática.

Dando aulas de desenho (vejam só)

Ao mesmo tempo, surgiu a oportunidade de dar aulas de desenho em um projeto social de um amigo. Confesso que, a princípio, fiquei hesitante. Não estava totalmente seguro do que eu podia ensinar, mas precisava de levanta recursos financeiro pra pagar as contas. Então resolvi aceitar o desafio: eu tinha conhecimento, mesmo que modesto para poder ensinar pessoas que sabiam menos do que eu, e podia passar algo útil para quem participava das aulas.

Aulas de desenhos no projeto social do meu amigo César Di

E acabou sendo uma experiência mais rica do que eu imaginava. Aproveitei para estudar ainda mais desenho e ilustração, aprofundando meus conhecimentos em fundamentos. Cheguei até a dar aulas, por exemplo para uma arquiteta recém-formada que queria revisar conceitos de perspectiva. Mesmo inseguro, percebi que conseguia transmitir o que sabia de forma clara, e minha relativa capacidade de desenho de observação foi essencial nesse processo.

Procurei me aprofundar cada vez mais no desenho de observação, até porque muita gente que procurava as aulas se interessava por um traço mais realista. Isso, sem dúvida, me deu mais segurança na hora de ensinar.

Pintura Digital a partir de observação de foto (ou mesclagem de fotos), mas tentando abstrair as pinceladas
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Pintura Digital de Retrato. Eis exercício de pintura que embora tende mais pro coisa realista, eu sempre tentava abstrair algum coisa.
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Retrato do Chico Xavier feito em lápis de cor a partir de Foto.

Mas, pra ser honesto, aprender, me aprofundar ou ensinar esse tipo de desenho (mais pro lado do realismo) nunca foi algo que realmente me motivou. Eu estudava porque sabia que era importante para as aulas, mas não sentia aquela motivação interna.

Pessoalmente, constatei que meu interesse nunca esteve em reproduzir a realidade de forma fiel. O que sempre me fascinou foi justamente distorcer o real, brincar com proporções, exagerar traços, criar algo mais estilizado, mais próximo do universo dos “cartoons”(ou cartuns) e da caricatura. Para mim, o fascínio pelo desenho sempre foi menos sobre reproduzir o que existe e mais sobre inventar ou reinventar a realidade própria.

E essa motivação vem de longe: do consumo das tirinhas que encontrava nos livros didáticos, nos jornais, dos livros infantis ilustrados, dos desenhos que assistia na TV, dos meus cadernos da infância recheados com personagens como Pica-Pau, Disney, Papa-Léguas e tantos outros. Era nessa linha que eu queria seguir, a do traço divertido, inventivo, que dá vida a mundos que não existem fora da imaginação.

E não é que eu não goste de desenhos menos estilizados ou mais realistas, muito pelo contrário. Eu gosto, sim. Não tenho nenhuma barreira com isso (sem bairrismos aqui). Admiro pinturas clássicas renascentistas, que buscavam uma excelência absurda na reprodução da realidade, tanto quanto admiro aquelas pinturas chapadas da Idade Média. Acho tudo válido. E gosto e admiro trabalho de amigos e artistas que têm essa pegada menos estilizada, e acho fascinante ver o quanto se dedicam e se desenvolvem nisso.

Eu até faço algumas pinturas e desenhos de observação, ou menos estilizados, mas é mais pra mim mesmo, como exercício pessoal, sem aquela ânsia de levar isso mais a sério.

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Estudo de Pintura Digital

O que realmente me interessa e me motiva no desenho, o que dá vontade de criar e dividir com o mundo, são os trabalhos na linha mais cartunesca. O desenho no estilo cartoon me dá uma sensação de liberdade, justamente por ser mais solto, mais permissivo, me dá a sensação de não estar tão preso as regras, de fazer tudo ter uma coerência.

Gosto desse espaço lúdico, desse ar quase infantil, no melhor sentido, que abre espaço para brincar, experimentar e criar com leveza. Falei mais disso no texto anterior (clique aqui para ler)

Investindo na ilustração como caminho possível

Foi com essa ideia que comecei a investir cada vez mais em desenhos autorais. Passei a brincar mais com o desenho cartoon, criar tiras, ilustrações, e me inspirar em cartunistas que eu amava profundamente: Ziraldo, Quino, Bill Watterson, e também vários artistas da área de concept de animação.

Mesmo com o traço autoral que eu tinha na época (lá por 2018, quando voltei a me dedicar ao desenho), eu sentia que ainda estava longe do que considero adequado para os meus objetivos. Mas, ao menos, já havia uma tentativa verdadeira de criar algo que fosse genuinamente meu. E, no fim das contas, aquilo era simplesmente o melhor que eu conseguia produzir naquele momento.

Por volta dessa época, 2019, comecei a fazer tirinhas informativas para minha companheira, que é psicóloga, e a publicar em grupos de Facebook. Para minha surpresa, elas tiveram uma boa repercussão, algumas pessoas até começaram a me procurar para encomendar tirinhas e ilustrações, entre outros freelas. No entanto, eu sabia que meu desenho autoral ainda tinha muito espaço para evoluir para um nível considerasse satisfatório.

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Tirinha que eu fiz para minha companheira que atua como Psicoterapeuta

Eu realmente estava disposto a melhorar e iniciar minhas investidas em uma carreira na ilustração, focando principalmente no mercado de livros didáticos e infantis, que sempre me despertou interesse. Percebi, então, que precisava estudar não apenas os fundamentos do desenho, mas também as técnicas e os conceitos da ilustração.

Há, de fato, uma diferença essencial entre desenhar e ilustrar. Desenhar está mais ligado ao ato em si, na técnica, observação, na prática do traço e da forma. É sobre desenvolver habilidade manual, estilo e sensibilidade visual. Ilustrar, por outro lado, envolve algo a mais do que só desenhar, envolve um propósito, transmitir uma ideia, passar uma mensagem clara.

Uma ilustração não é apenas um desenho bonito (e as vezes ilustração não é nem desenho, pode ser colagem, 3D, entre outras coisas). Ilustração comunica, explica, emociona ou dá suporte a uma narrativa. Pode ajudar a contar uma história, reforçar uma ideia, transmitir um conceito complexo ou simplesmente tornar algo mais atrativo.

Projeto de Ilustração infantil que fiz como desafio pessoal para exercitar a minha capacidade de ilustrar

Enquanto o desenho é pode ser só o exercício do desenho, a ilustração é a aplicação. Desenhar ensina a ver e a representar; ilustrar ensina a pensar, a comunicar e a provocar uma reação no público. É a diferença entre criar por si mesmo e criar para alguém ou para algo. Entender isso foi fundamental para direcionar meus estudos e minha prática de forma mais consciente e eficaz.

Foi então que decidi buscar cursos e materiais que me ajudassem a compreender melhor os fundamentos do desenho e da ilustração, aumentando minhas capacidades de expressão.

Estudando

Fiz alguns cursos, comprei livros e assisti muito vídeo sobre o assunto no youtube.

Cada estudo, cada exercício, cada referência absorvida me ajudou a entender melhor como manipular linhas, formas, composição e expressividade, abrindo caminho para que meu traço se tornasse mais livre, seguro e, ao mesmo tempo, mais autoral.

Um dos livros que mais impactou a minha evolução como desenhista e ilustrador foi Drawn to Life, que é uma coletânea das aulas de Walt Stanchfield, que foi professor de desenho gestual nos estúdios Disney.

Versão Pt-BR (raríssima) do livro Drawn to Life

Esse livro (ou esses se for versão br) é muito mais sobre pensar o desenho do que um livro que te ensina fórmulas rígidas pré-moldadas da técnica de desenho. Ele dá ênfase principalmente na importância do desenho gestual, mostrando como capturar a essência de uma pose ou movimento, e traz noções de fundamentos essenciais, mas de forma prática e aplicável, não como fórmulas rígidas e conceitos burocráticos.

O grande valor de Drawn to Life está em ensinar a perceber e expressar a energia do gesto, sem se preocupar de imediato com detalhes ou perfeição anatômica. O livro incentiva a soltar o traço, exagerar movimentos, trabalhar a expressividade e a narrativa do corpo, para que cada pose conte algo, transmita emoção e movimento. É um guia sobre como pensar o desenho de forma viva e orgânica, focado em capturar a essência de personagens e objetos, e não apenas replicar formas, como muitas vezes se vê nas tradicionais aulas de modelo vivo.

Tive a sorte de encontrar a versão em português, publicada em pt-br como Dando Vida a Desenhos, em dois volumes, uma raridade, já que o livro é difícil de achar traduzido. A leitura foi uma verdadeira abertura de horizontes: percebi que meu traço podia ser mais solto, que eu podia priorizar a expressividade do gesto em vez da perfeição anatômica.

Até então, eu ficava muito preso à observação fiel da realidade e à tentativa de reproduzir proporções corretas e isso deixava meu desenho engessado, mas Drawn to Life mostrou que a força de um desenho está na energia que ele transmite, na essência capturada em cada pose.

A partir daí, comecei a praticar desenho gestual intensamente. Meus trabalhos ganharam um caráter mais livre, dinâmico e expressivo, e aprendi que era possível exagerar gestos, brincar com proporções e explorar a liberdade do traço sem perder coerência.

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Desenhos de figura humana feito antes de aprender desenho gestual. Não eram ruins, mas ainda eram meio duros.
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Desenhos Gestuais de Figura Humana depois que aprendi os conceitos do Drawn to Life. Os traços são mais toscos, mas as poses tem mais expressividade

Outra coisa que foi uma virada de chave pra mim foi fazer o curso do site Draw a Box. Um curso gratuito de fundamentos do desenho, disponível e acessível para qualquer um, basta acessar o site drawabox.comUm curso de fundamentos do desenho, muito focado na compreensão de formas e volumes, e na capacidade de visualizar e construir objetos de forma tridimensional.

Embora eu já tivesse conhecimento prévio de perspectiva, o curso apresentou uma forma prática e didática de aplicar os fundamentos, tornando tudo muito mais compreensível e fácil de colocar em prática.

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O que aprendi no drawabox.com expandiu muito minha capacidade de compreender, visualizar e criar formas em três dimensões, algo essencial para dar vida a cenas que brotam da imaginação.

Mesmo nos meus traços mais estilizados e cartunescos, onde existe um certo descompromisso com a realidade, o curso me deu a uma base para que eu pudesse então construir a partir de sólido geométricos básicos, aumentou e muito a minha noção de espaço tridimensional.

Porque, no fim das contas, é isso: é preciso saber construir para depois poder distorcer; entender as regras para então quebrá-las com intenção.

Uma coisa que eu gosto de manter nos meus desenhos é sempre trabalhar com noção de volumes e enquadramentos que exploram a perspectiva e volumetria, mesmo que de forma sutil ou rudimentar. Isso ajuda a criar profundidade e imersão, evitando que os desenhos fiquem chapados demais e monótonos. Com esse aprendizado, passei a sentir mais segurança para brincar com a liberdade do traço, inventar e exagerar formas, mas sem perder uma certa coerência e a base do desenho.

Tenho falado bastante sobre desenho de imaginação, mas não no sentido de inventar tudo do zero, sem qualquer referência. Não é bem assim. Afinal, ninguém consegue guardar na memória todos os detalhes e formas de tudo o que existe no mundo

O que me interessa é conseguir construir cenas, personagens e situações, mesmo que ainda de forma primária, e desenvolver a partir disso, como se estivesse moldando a ideia aos poucos.

É parecido com o trabalho de um escultor: você começa com uma base, entende as formas e o espaço, e vai ajustando, adicionando camadas, criando profundidade e personalidade.

Outra coisa que me ajudou muito foi fazer cópias de estudo de desenhos de outros artistas que eu admirava. Calma, você pode pensar: “Mas Danilo, você não disse que queria trabalhar de forma autoral, sem ficar preso à cópia?” Sim, e é exatamente por isso que estou falando de cópia consciente, de cópia como estudo.

Na pintura, isso é conhecido como Master Copy, ou “Cópia dos Mestres”: você replica obras de grandes artistas no intuito de assimilar o jeito deles de pensar, de criar, a escolha de ângulos, os detalhes, a composição. Não se trata de copiar mecanicamente, mas de tentar entender e absorver soluções visuais, ideias e técnicas, que um grande mestre aplicou, poder aplicar depois incorporar alguns aspectos ao próprio trabalho.

Estudos de cópia baseados nos desenhos do Nic Parris

Então, eu comecei fazer esses estudos de cópia em cima de desenhos de artistas, cartunistas e ilustradores que eu queria me aproximar esteticamente, não exatamente fazendo uma cópia literal, mas observando certos elementos que gostava e queria entender melhor a aplicação.

Por exemplo, eu adoro o traço irregular do Jean Galvão. Ele tem aquela espontaneidade que me atrai muito, um traço que não é preocupado em ser certinho, mas que justamente por isso transmite vida, movimento e uma sensação de algo orgânico, mesmo no digital. Acho bonito quando o traço não tenta esconder suas imperfeições, mas assume elas como parte da identidade.

Esse traço irregular do Jean é um charme!

Outra influência forte para mim, é trampo do Will Leite, do blog WillTirando, criador da Dona Anésia, entre outras séries. No caso dele, não é tanto o estilo do desenho em si que absorvi, mas a forma como ele constrói as cenas e a narrativa. Admiro como Will conduz a narrativa, como escolhe os ângulos de câmera e varia o posicionamento dos personagens de uma cena para outra, criando ritmo e dinamismo.

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O Will Leite é fera em conduzir a narrativa nos quadrinhos

Também carrego bastante coisa dos trabalhos da Laerte, principalmente os infantis, como Suriá e Carol. Ela tem uma habilidade impressionante de montar cenas e criar cenários, na tão complexo, mas que muitas vezes vão além do necessário para uma tira, e que tornam tudo visualmente mais rico. Tento levar um pouco disso para os meus quadrinhos, sempre que possível, mesmo que eu não chegue ao mesmo nível de detalhe e exuberância que a Laerte consegue.

Adoro o jeito que a Laerte intercala quadros minimalistas, com quadros bem mais carregados de elementos.

Outro ilustrador que marcou muito meu desenho foi o Biry Sarks. Eu gostava demais das ilustrações e personagens que ele fazia para a revista RecreioEles tinham um carisma único, com uma expressividade e um gestual que eu acho simplesmente fantásticos. Nada era rígido ou engessado, tudo parecia fluido, cheio de energia.

O traço do Biry nessas seções da Revista Recreio, me influenciam muito. É de um carisma singular.

O estudo dessas referências vai se misturando e, de algum jeito, acaba se incorporando ao meu desenho, criando quase uma quimera, uma soma de influências diferentes que, juntas, começam a dar forma ao meu próprio estilo.

Não acho que eu tenha um estilo totalmente definido, e nem sei se terei. Meu desenho está em constante metamorfose: estou sempre experimentando, conhecendo novas referências, ajustando objetivos e absorvendo experiências, e isso é totalmente natural.

O próprio Akira Toriyama mudou bastante seu traço ao longo do tempo, assim como muitos outros artistas. Por isso, não vale a pena ficar obcecado em “achar o próprio estilo”. O que acontece, no final, é que você vai desenhando, experimentando, e o estilo surge quase sem perceber.

Meu desenho mudou bastante ao longo do tempo, e provavelmente vai continuar mudando, normal.

Algumas tirinhas antigas eu até refiz, usando meu traço atual: gosto da piada, mas já não me identifico tanto com o traço original. Ao mesmo tempo, gosto de preservar o original, porque é fascinante acompanhar essa linha de evolução. É algo que admiro muito nos artistas que sigo: o Snoopy e o Charlie Brown do Charles Schulz, por exemplo, mudaram bastante desde o começo da carreira. Ou os personagens do Will Leite, que no início eram quase bonecos palito e, com o tempo, evoluíram para um estilo totalmente próprio, reconhecível e único do Will.

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(quase) Todas as minhas tiras e cartuns antigos estão disponíveis no acervo do meu site, para quem quiser acompanhar minha trajetória. Ainda faltam alguns que vou adicionando aos poucos. Não acho que tenha evoluído de forma surpreendente, e longe de me considerar um ás do desenho, mas sinto que meu traço está cada vez mais próximo do que eu queria. Para meus objetivos, ele cumpre o que preciso.

Satisfação

Por estar mais focado em tiras e cartuns, isso me deu uma sensação de liberdade para expressar meu desenho do jeito que quero, diferente daquilo que eu faço para clientes, que às vezes preciso mudar a minha estética. Claro que sempre há algo novo a aprender, estudar e evoluir, mas tenho ficado feliz com as soluções estéticas que tenho alcançado.

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Execício de expressões

E aí vem a pergunta: será que é preciso desenhar bem para criar tirinhas e cartuns? E o que é desenhar bem?

Pra ser bem claro e direto, a minha resposta é não, não precisa necessariamente desenhar bem para criar tiras, cartuns, charges e coisa do tipo. Mas discutirei mais sobre isso num próximo post, por enquanto é só.


Por enquanto é isso

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