Minha dificuldade de criar com personagens
Minha dificuldade sempre foi encaixar ideias aleatórias em personagens predefinidos, e por isso meu processo criativo acabou se baseando mais em ideias do que personagens. Entenda mais sobre isso…
Esses dias fui convidado para o podcast Capiau, apresentado pelo Érico San Juan, na TV Metropolitana de Piracicaba (você pode assistir aqui). A conversa foi ótima, passamos por vários assuntos, mas teve um momento que me chamou atenção: o Érico perguntou por que eu não tenho ou trabalho com personagens nas minhas tiras.
Afinal, no universo das tiras e dos cartuns, criar personagens é quase um caminho natural. É o que muitos artistas fazem: constroem um pequeno mundo, dão vida a figuras com personalidades próprias e, a partir disso, passam a desenvolver ideias, situações e piadas dentro desse universo.
Grandes nomes da história das tiras seguiram exatamente esse caminho. Mafalda, Snoopy, Garfield, a Turma da Mônica, só pra citar os mais óbvios, são personagens que transcenderam e viraram parte da cultura popular.

E não são casos isolados, há inúmeros artistas que conseguiram se destacar, construir uma base de leitores fieis, fãs, e até viver da própria arte justamente porque criaram personagens marcantes, reconhecíveis, que as pessoas gostavam de consumir.
Mas eu mesmo, não consegui até o momento, trabalhar realmente bem com criações a partir de personagens. Minhas ideias para tiras quase sempre nascem da própria ideia em si, e não de um personagem. Só depois, se muito, penso em quem poderia “atuar” nela.
Quando tento partir de um personagem fixo, sinto que começo a me limitar demais. É como se eu tivesse que encaixar a ideia dentro do jeito de pensar, falar e agir daquela figura. E aí o que era exploração mais livre parece virar um exercício de adaptação ao contexto de determinado personagem.
E como minhas ideias tendem a ser bem aleatórias, às vezes, me parece complicado demais fazer tudo isso caber dentro do mesmo universo ou dentro da personalidade de determinado personagem.
E não que limitação criativa seja algo ruim, muito pelo contrário. É justamente dela que nasce o meu processo de criação. Muitos artistas, ilustradores e desenhistas se sentem travados diante da folha em branco. E faz sentido: quando não há um recorte ou um foco, a mente entra numa espécie de paralisia decisória, pois são tantas possibilidades que a gente acaba não indo pra lugar nenhum.
Ter um tema, um direcionamento ou até uma restrição ajuda muito a mente a se mover e a encontrar caminhos. A diferença é que, pra mim, esse limite não costuma vir de um personagem, mas da própria ideia. É a ideia que define o formato, o tom e o universo em que ela vai existir.
Por isso acabei não seguindo o caminho de criar personagens fixos. Acabo preferindo deixar que cada tirinha tenha sua própria voz, seus próprios personagens e seu próprio mundo. Assim, cada ideia nasce livre, ainda que dentro de um certo limite temático.
Essa minha dificuldade me faz lembrar de uma transição que a Laerte vivenciou. Ela, que é uma das maiores cartunistas do Brasil, criou personagens incríveis e inesquecíveis, como Os Gatos, Hugo/Muriel, os Piratas do Tietê, Overman, Fagundes, Suriá e tantos outros.

Mas, em determinado momento da carreira, Laerte decidiu abrir mão dos personagens e passou a criar de forma mais livre, sem amarras, experimentando formatos, ideias e linguagens. Isso abriu uma nova fase em sua obra, mais simbólica, poética e imprevisível. De certa forma, ela se libertou da necessidade de ter personagens fixos e pôde explorar possibilidades sem estar presa a um molde.

Ela disse em uma entrevista concedida ao rascunho.com.br:
“(…) comecei a perceber que trabalhar com personagens e construir piadas do jeito que eu fazia era uma limitação. Estava me sentindo limitada. De alguma forma, queria outra coisa e aí, sim, em 2004, eu rompi. Ao romper, percebi que a estrutura diante da qual estava me dispondo era uma espécie de prisão, a jaulinha, vamos dizer. Passei a produzir um material mais livre, solto, sem noção, experimental.”
E sim, eu poderia usar esse mesmo argumento da Laerte para justificar o fato de eu mesmo não trabalhar com personagens, e gostar de trabalhar de forma mais livre. Mas a verdade é que eu sempre gostei e sempre quis e quero, trabalhar com personagens, porque eu sempre gostei de personagens.

No entanto, além dessa questão de me ver limitado ao trabalhar com personagens, nunca encontrei personagens que realmente me empolgasse a criar continuamente com eles.
Acho que fiquei o tempo todo em busca de uma premissa inédita, de um universo verdadeiramente novo, de figuras com personalidades interessantes, algo que me fizesse pensar: “ok, isso vale a pena explorar a fundo”. Só que, sendo honesto, talvez essa procura por algo totalmente diferente também tenha me travado um pouco.
Durante muito tempo, pensei em criar uma turminha de crianças. É um formato que sempre me atraiu, porque vem de referências que amo: Peanuts, Mafalda, Calvin e Haroldo, as tiras do Jean Galvão na Revista Recreio… são tiras que conseguem falar de temas divertidos e pra lá de lúdicos, e até mesmo de assuntos profundos e existenciais usando a leveza e o olhar curioso da infância, e aprecio bastante isso.

Tanto que uma das coisas que eu mais aprecio é o olhar lúdico e quase infantil (no melhor sentido) do Poeta Manoel de Barros, que influencia inclusive no meu próprio fazer poético (e sim também tenho esse lado literário)
“A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.” (Manoel de Barros)
O universo infantil tem essa vantagem: permite explorar o lúdico, o imaginário, e até críticas sociais, mas de um jeito menos contaminado pelas amarguras da vida adulta. Só que, mesmo assim, nunca senti aquele impulso verdadeiro de seguir com isso a longo prazo, pelo menos não até o momento.

Também já me coloquei como personagem em algumas tiras, fazendo as tais tirinhas autobiográficas. É um caminho que muitos artistas seguem, e não à toa, quando o ponto de partida é a própria vivência, o material criativo está sempre à mão (ou na cabeça). Mas, para mim, isso não funcionou muito bem.

Não gosto tanto de me usar como personagem e prefiro criar uma arte que soe mais impessoal, sem estar necessariamente vinculada à minha própria imagem. Quando tenho ideias inspiradas nas minhas vivências, e são muitas, costumo transferi-las para outras figuras, que acabam interpretando de forma simbólica fragmentos da minha vida.
Nos últimos meses, até comecei a me permitir brincar mais com a ideia de personagens recorrentes, mas sem grandes pretensões. É mais uma experimentação: eu crio, uso em algumas tiras, deixo quieto, e às vezes eles voltam. Pode ser que um dia um desses personagens “fique”, e tudo bem se acontecer naturalmente.


E sim eu tenho personagens
Esses dias eu pensei: “Poxa, eu já tenho personagens, tenho o Yllo e o Ylmo, por que não trabalhar com eles?” Aí veio aquela vozinha interna: “Ah, mas não é nenhuma premissa inovadora.” E eu mesmo me respondi: “Não, não é. E daí? Eu gosto deles, gosto de ETs, gosto da vibe deles. Por que não investir neles?”
O Yllo e o Ylmo são dois etezinhos curiosos, viajando pelo espaço em suas pesquisas e investigações intergalácticas. Eles são aqueles tipos de personagens que sempre estiveram ali, flutuando pelas minhas ideias.
No começo, o visual deles nunca me agradou totalmente. Eram uns ETs meio estranhos, pareciam minhoquinhas. Na primeira versão, dei a eles antenas, tentando deixar o visual mais “clássico” de alienígena. Depois, achei que seria divertido substituir as antenas por fones de ouvido (por que? porque sim, apenas)


Como resolvi que quero trabalhar mais com eles nas minhas tiras dei repensada na estética deles, refinei o traço e procurei um equilíbrio entre o simples e o expressivo. O resultado foi um visual mais limpo, simpático e com mais personalidade (acho eu). Agora dá pra ver claramente quem é o Ylmo e quem é o Yllo.

A personalidade deles ainda está em construção, só posso dizer que Yllo é mais extrovertido, enquanto Yllo é um pouco mais fechado. É bem aquele clichê do personagem redondinho ser mais carismático, e o mais quadrado, ser mais “durão”, talvez eu subverta isso futuramente, mas por enquanto basta. Ah e ele tem esses chapeuzinhos, que o jeito que eles encontraram para se disfarçar entre outros seres de outros planetas que eles visitam (e pasmem, funciona tá)
Yllo e Ylmo foram os únicos personagens que realmente criei e usei de maneira esporádica no começo da minha iniciativa de fazer tiras e cartuns. Nada revolucionário, mas eu gosto deles.
E talvez seja isso o que realmente importa: não a originalidade absoluta da ideia, mas a autenticidade da forma.
E lembro também que o próprio Peanuts do Schulz, considerado uma das séries de tiras mais bem-sucedidas da história, não surgiu como algo totalmente inédito. Antes dele, vários autores já haviam explorado turmas de crianças nos quadrinhos, como a conhecida Turma da Luluzinha (que também foi inspiração inclusive para a criação de Turma da Mônica).

O que Schulz fez de diferente não foi inventar a ideia de crianças protagonistas, mas contar a história do jeito dele. Ele deu uma personalidade muito forte e única a cada personagem, tornando-os imediatamente reconhecíveis. Charlie Brown, Lucy, Linus, Snoopy… cada um tinha um jeito próprio de ser, cheio de nuances, humor sutil, melancolia e simplicidade ao mesmo tempo.
Isso mostra que, muitas vezes, não é necessário inventar algo completamente novo para criar algo interessante. O que faz a diferença é o olhar do autor, a maneira como ele interpreta a própria experiência e transforma isso em narrativa, seja no tom, no ritmo, no humor ou na forma de se conectar com o leitor. É o jeito de contar a história que torna tudo único.
No fundo, nada é totalmente novo. Tudo é reinvenção, releitura, eco de algo que já existiu, e está tudo bem.
De certa forma, faço tudo isso para mim também. É uma conversa que começa comigo mesmo, e precisa antes de tudo me agradar.
Não sei exatamente onde isso vai dar, e talvez essa seja justamente a graça da coisa.
Por enquanto é isso
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