Inteligência Artificial e a Banalização do Resultado “Criativo”

Aviso: O texto é longo. Leia por sua paciência em risco, mas o legal é que tem alguns cartuns e tirinhas bem legais ao longo do texto de gente bacana.

Trend’s que me cansam a alma

Esses dias fomos surpreendidos por mais uma trend, ou, no português bem claro, a tal “modinha” do “faça sua versão no estilo tal”. Dessa vez, a onda foram imagens geradas por IA que transformam fotos em desenhos no estilo do Studio Ghibli (sim, já estou atrasado, afinal as trends costumam durar uma semana, no máximo duas), sim o famoso estúdio de animação japonesa conhecida por obras como A Viagem de Chihiro, Castelo Animado, Princesa Kaguya, entre tantos outros. Antes, já tivemos a febre do faça sua versão nos estilos Disney e Pixar… e agora, claro, não podia faltar a apropriação do visual do aclamado estúdio japonês.

Tudo começou quando o ChatGPT liberou uma atualização permitindo gerar essas imagens via prompt (comando de texto). Não demorou para viralizar, com todo mundo postando suas “versões estilo Ghibli”. A demanda foi tanta que a OpenAI, dona do ChatGPT, limitou o acesso — só assinantes pagantes poderiam usar o recurso de forma ilimitada. Resultado? Uma enxurrada de gente assinando só pra surfar no hype e, quem sabe, pescar uns likes nesse oceano infinito de conteúdo.

Mas, por trás dessa brincadeira “inocente”, há um debate profundo e urgente sobre o uso da Inteligência Artificial para gerar “imagens no estilo tal” — uma discussão que vai muito além da simples novidade tecnológica e mergulha em questões éticas, legais e criativas.

A Usurpadora

O ponto mais evidente (e amplamente debatido na comunidade artística) é a apropriação indevida de obras protegidas por direitos autorais para treinar esses modelos de IA. Em outras palavras: roubo. A verdade é que a Inteligência Artificial não gera arte a partir do zero — ela depende de um imenso banco de dados composto por milhões de imagens, muitas delas criadas por artistas que nunca consentiram com o uso de seus trabalhos.

Essas IAs funcionam como máquinas de colagem hipercomplexas, recombinando traços, cores e composições de obras existentes para produzir algo “novo”. No entanto, grande parte dos artistas originais não foi consultada sobre o uso de suas criações e, pior, não recebe qualquer compensação quando alguém gera uma “versão IA” copiando seu estilo.

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Tirinha de Rafael Corrêa (@rafael_correa_cartum)

E agora artista?

E não para por aí. O impacto da IA vai muito além da questão do roubo de estilo — estamos falando do sucateamento de uma profissão inteira.

Muitos setores já estão sentindo o golpe. Designers, ilustradores, tradutores (e tantos outros profissionais), veem seus empregos ameaçados por ferramentas que prometem resultados rápidos e baratos — mas que, no fim, escondem um custo social altíssimo. Não se trata apenas de substituição tecnológica, mas de desvalorização generalizada do trabalho criativo e humano.

Algumas categorias já estão mostrando que é possível frear esse avanço desregulado. A greve dos roteiristas em Hollywood, em 2023, foi um marco: após meses de mobilização, o sindicato conseguiu acordos que limitam o uso de IA na criação de roteiros (entre outras pautas importantes), garantindo que humanos não sejam completamente substituídos por algoritmos.

No Brasil, a luta também está ganhando força. A UNIDAD (União Democrática dos Artistas Digitais) tem se destacado como uma das vozes ativas nessa batalha, mobilizando profissionais da área e chamando a atenção para os desafios enfrentados pelos artistas nos tempos atuais, Conscientizando sobre a regulamentação do uso de IA na arte e fazendo pressão por políticas públicas que protejam a autoria e a remuneração justa. Com o crescimento acelerado das ferramentas de inteligência artificial, a entidade busca garantir que os artistas brasileiros não sejam marginalizados, mas sim incluídos de forma ética e respeitosa nesse atual momento.

Enquanto muita gente se diverte brincando de “versão Ghibli” ou “foto no estilo Renascimento”, muitos artistas estão lutando para não virar história (no pior sentido da coisa). 

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Tirinha de Breno (@parabrisadeluneta)

Não adianta atacar o Leigo

É importante entender que a maioria das pessoas que participam dessas trends não faz ideia do que está por trás (infelizmente). Elas só veem uma ferramenta divertida, um jeito de se imaginar em um universo que admiram. Não dá pra culpar completamente quem compartilha sua “versão Ghibli” sem saber dos problemas por trás da IA generativa. Afinal, se a ferramenta está disponível e todo mundo está usando, por que não né?

O problema não está no usuário comum, mas no sistema que se aproveita em cima de um modelo questionável de negócio.

O Vídeo do Marco discorre mais sobre assunto:

Contradição Fatal

Mas o que eu quero abordar aqui vai além da discussão sobre direitos autorais ou trends digitais. Quero falar sobre algo mais profundo: o processo de criação artística em si. E o caso da moda “faça sua versão no estilo Ghibli” é especialmente contraditória quando a gente para pra pensar no que o Studio Ghibli realmente representa.

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Tirinha de Claudio Mor (@mortoon_oficial)

O estúdio japonês, responsável por obras como A Viagem de Chihiro (vencedor do Oscar), Meu Vizinho Totoro e Princesa Mononoke, tem uma filosofia radicalmente oposta ao uso de IA em suas produções.

Hayao Miyazaki, seu cofundador e um dos maiores nomes da animação mundial, já deixou bem claro sua posição. Em 2016, quando lhe apresentaram uma animação gerada por algoritmos, ele não economizou nas palavras:

“Estou completamente enojado. Se você realmente quer fazer coisas assustadoras, pode ir em frente. Eu nunca desejaria incorporar essa tecnologia ao meu trabalho. Isso é um insulto à própria vida.”

Enquanto a indústria da animação migrou massivamente para o 3D digital, o Ghibli insiste em fazer arte à mão, com lápis e papel. Isso não é só uma escolha estética – mas acaba sendo um ato de resistência do fazer humano.

Um dos argumentos mais absurdos que ouvi de defensores das IAs é que elas “quebram o monopólio da habilidade técnica”, e que as IA’s vieram para democratizar da criação visual. Puxa vida! Como se existisse algum guardião cósmico impedindo as pessoas de criar arte!

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Tirinha de JorgeOMau (@jorgeomau)

A morte do processo criativo?

Desenhar é uma das formas de expressão mais acessíveis que existem. Precisa de quê? Um lápis e um pedaço de papel. Todo mundo desenha quando criança – a diferença é que alguns continuam, outros não. Ninguém nasce sabendo. Arte não é dom divino, é estudo, repetição e persistência.

Mas aí entra um problema cultural: a romantização do resultado final. O público leigo, pode ver uma pintura incrível, uma animação linda, e achar que aquilo surgiu de forma miraculosa, quase como por um milagre. Como se o artista tivesse acordado um dia, pego um lápis e—puf!—a mágica aconteceu. O que as pessoas não veem são os rascunhos que foram descartados, as tentativas que deram errado, as noites de frustração. O que chega ao público é a versão polida, o resultado final. Mas por trás de cada traço bem feito, existe uma jornada de erros, ajustes e recomeços.

E, agora, com a proliferação das inteligências artificiais geradoras de imagem, essa percepção fica ainda mais distorcida. Criou-se a narrativa de que a IA “democratiza a arte”, tornando-a acessível a todos, já que “fazer arte” é só apertar uns botões. Mas será que isso é realmente uma democratização ou apenas uma banalização? A ideia de que “agora qualquer um pode criar imagens incríveis a toque de caixa” ignora o que de fato faz a arte ser valiosa: o olhar humano, a intenção, a jornada.

O problema é que, ao remover o processo de tentativa e erro, a IA também retira o aprendizado, a expressividade e a autenticidade.

E isso alimenta uma mentalidade perigosa: se uma ferramenta pode gerar algo visualmente impressionante em segundos, por que gastar anos desenvolvendo uma habilidade? Por que valorizar o trabalho de quem se dedicou? Assim, a arte passa a ser medida apenas pelo impacto visual imediato, como se seu valor estivesse apenas no resultado, e não na jornada que levou até ele.

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Tirinha de Carol Ito (@carolito.hq)

E, pra ser justo, ninguém tem a obrigação de saber o que acontece nos bastidores. Nem todo mundo se interessa pelo “como”, só pelo “que”.

Mas muitas pessoas que gostariam de ter esse tal “dom” artístico veem na IA uma possibilidade de expressar algo que elas mesmas nunca conseguiram, seja porque não tiveram tempo pra se dedicar, achavam que era um dom divino ou simplesmente não estavam dispostas a enfrentar o estudo e a prática necessários.

A IA, de certa forma, cria uma ilusão de acesso fácil à arte. De repente, qualquer pessoa pode gerar imagens visualmente impressionantes sem passar pelo esforço de aprender técnicas, treinar o olhar, entender composição, luz, sombra, perspectiva. E isso pode ser tentador—quem nunca quis pular direto pro resultado sem passar pelo processo? Mas é aí que mora o problema: quando o esforço deixa de ser parte da equação, a arte se transforma em algo superficial, e o processo criativo perde seu valor.

O que se esquece é que fazer arte não é só produzir imagens bonitas, mas construir um repertório, desenvolver um olhar, dar significado ao que se cria. Não é só sobre o desenho em si, mas sobre quem o fez e como chegou até ali. Quando alguém gera uma imagem com um prompt, está pulando etapas essenciais—e, por consequência, deixando de desenvolver uma identidade artística própria.

Postado por @helodangeloarte

E é verdade, o processo de fazer arte pode ser doloroso. Aprender algo novo é desconfortável por natureza. A frustração faz parte do caminho, e não é na primeira tentativa que se acerta. Nem na segunda, nem na décima, nem na vigésima. É um processo de se permitir errar, ajustar, errar de novo, aprender com o erro e continuar.

E eu entendo. É frustrante se esforçar e não ver o resultado esperado. Olhar pro próprio desenho e sentir que tem algo errado, que não ficou como a gente imaginava. Pior ainda é quando a gente se compara com quem já domina a técnica. Parece que a outra pessoa faz tudo com uma facilidade absurda, como se nem precisasse pensar.

Mas isso é porque a gente só vê o palco, nunca os bastidores. O erro está em comparar nosso primeiro passo com os quilômetros que alguém já percorreu.

Eu mesmo já pensei em desistir tantas vezes que perdi a conta. Tem dias que o papel em branco parece gritar, que cada traço sai errado e que já não sei mais desenhar. Dias em que a criatividade some e a autoconfiança vai junto. E aí lembro de um trecho da música do Rashid:

“Você já pensou em desistir? Hoje de manhã eu estava pensando nisso.”

Porque a frustração está sempre ali, batendo à porta.

Mas criar também tem seu lado glorioso. É a emoção de experimentar, de testar, de moldar a matéria bruta da imaginação. Dar asas a ideias que só existem dentro de você e vê-las ganhar forma no papel, na tela, no barro.

É aquela satisfação indescritível de perceber sua própria evolução a cada desafio superado – quando aquele traço que antes não saía direito começa a fluir, quando as cores finalmente conversam como você queria. Quando encontra um jeito diferente de representar uma ideia que só você você pensou.

Po arte, no fundo, é isso: é dor e êxtase. É suor e descoberta. É o medo do fracasso e a alegria da criação. Enquanto você cria, você vive de verdade – com todas as dores, mas também com todas as delícias que quem ousa criar desfruta.

Aprender qualquer habilidade leva tempo e exige dedicação. Essa é a verdade mais pura – somos realmente medíocres em tudo aquilo em que não nos dedicamos. Eu mesmo gostaria de tocar violão e guitarra melhor, sou bem “peba” nas cordas, mas como priorizo outras coisas na vida, acabo me contentando em tocar de forma bem simples no meu quarto, só pra mim mesmo. Arranho alguns riffs, faço alguns acordes básicos, rascunho algumas músicas, e pra mim já basta, já que não tenho a pretensão de me tornar um músico profissional, então tudo bem ser medíocre em hobby.

Com o desenho acontece algo parecido. Não me considero nenhum virtuose – tecnicamente, sei que tenho muito ainda pra aprender. Mas quando paro pra olhar minha própria jornada, consigo reconhecer conquistas que me deixam genuinamente orgulhoso.

Sempre fui apaixonado por tirinhas de humor como Calvin e Haroldo, Mafalda, Níquel Náusea e tantas outras. Lembro que chegava a fazer álbuns de “figurinhas” com as tirinhas que recortava dos livros didáticos de português e de alguns jornais que às vezes chegavam em casa.

Quando comecei a criar minhas próprias tirinhas com mais seriedade, lá por 2018, hoje olhando pra trás, vejo como elas eram rudimentares. Algumas eu até refiz depois, mantendo a piada mas melhorando o traço, porque ainda gostava da ideia original. E é realmente gratificante poder ver essa evolução, mesmo que não seja nenhum salto espetacular, mas algo ainda que singelo, mas que me agrada de constatar a evolução.

A arte vai muito além do resultado final, ela está no caminho percorrido. O produto acabado é apenas uma parte pequena de todo o fazer artístico. O verdadeiro trabalho, o sangue e suor, está no processo em si. Como diz o BNegão na música “O Processo”:

“O processo é lento / O desapego do resultado é importante / O processo é lento / O caminhar contínuo nessa vibe deve ser o modus operandi”

Existe um velho estigma sobre o artista nunca estar satisfeito com seu próprio trabalho. E isso acontece porque estamos sempre em busca de aprimoramento, de novas formas de usar os materiais, de misturar cores, de finalizar traços. Estamos constantemente curiosos, experimentando, testando, buscando.

O fácil pode ser chato

Tudo que parece fácil demais de fazer, que não apresenta desafios reais, acaba se tornando desinteressante. Quando algo é banalizado, perde seu valor justamente porque perde a essência da jornada e do desafio. Se tudo é especial, nada é especial. O que realmente chama atenção é pensar “nossa, como esse cara conseguiu fazer isso?”

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Tirinha de Helô D’Angelo (@helodangeloarte)

É exatamente isso que torna o processo tão fascinante para mim – o desafio da jornada e a satisfação da conquista. A verdadeira graça está em fazer, não necessariamente em terminar, em obter tão somente o resultado. Terminar é bom, claro, mas logo depois já queremos começar algo novo, especialmente algo que nunca fizemos antes, para explorar novas possibilidades. Isso é o que realmente nos instiga.

Pense em um filme, um livro ou um quadrinho – eles só são realmente interessantes se a jornada for cativante, se os desafios forem instigantes. Não queremos pular pro fim do filme assim que ele começa, queremos presenciar a jornada. A Jornada do Herói nos conquista justamente por equilibrar momentos de tensão e desafios a serem superados. Num jogo de videogame – se a dificuldade for baixa demais, sem oferecer desafios significativos, o jogo se torna tedioso e monótono. Queremos vivenciar o desafio da superação.

O prazer verdadeiro vem quando sentimos que superamos um obstáculo que realmente testou nossas capacidades. “Nossa, que fase difícil, mas consegui passar!” É por isso que ficamos impressionados quando descobrimos que determinada cena complexa de um filme do Studio Ghibli levou mais de um ano para ser animada à mão, com todos aqueles detalhes minuciosos. Saber do desafio por trás só engrandece a obra.

E é exatamente essa jornada, essa superação de desafios, que a geração de imagens por IA simplesmente elimina. A IA te entrega apenas o resultado final, um produto ultraprocessado, onde a pessoa que digitou o prompt não passou por nenhuma das etapas reais do processo criativo. Não houve dilemas, tomadas de decisão, associações criativas – tudo aquilo que só um ser humano pode vivenciar.

tirinha de Paulo Bruno
Tirinha de Paulo Bruno (paulobruno_art)

“Ah, mas eu posso personalizar o prompt, detalhando exatamente o que quero”. Sim, é possível até certo ponto controlar os resultados da ia, mas você nunca tem controle total dos detalhes. E mais importante – algo sempre se perde no caminho. Estou falando daquelas sutilezas, dos pequenos detalhes que muitas vezes são justamente o que dão identidade a uma obra ou a um artista.

Eu adoro consumir artbooks – aqueles livros que mostram todo o processo por trás da criação de um filme ou série. Também amo assistir making-of’s e documentários sobre produção criativa. Me interessa profundamente conhecer os processos por trás das obras, acho fascinante acompanhar esboços, geração de ideias, desenvolvimento de personagens.

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trecho de livro de artbook do hora de aventura
Imagens do Livro “The Art of Ooo”, que mostra detalhes da produção da série animada “Hora de Aventura”

Isso não serve apenas como estudo para meu próprio trabalho artístico, mas porque é genuinamente interessante entender as possibilidades e desafios envolvidos na criação de algo. Esse conhecimento torna a obra final ainda mais valiosa.

A beleza da Imperfeição

Há algo profundamente inquietante nas ilustrações geradas por IA. Por mais que impressionem à primeira vista – com suas cores vibrantes, composições impecáveis e um realismo quase fotográfico – elas carregam uma estranha frieza. São como flores de plástico: perfeitas na forma, mas não tem a textura e o aroma de uma flor de verdade, sem aquele detalhe imperceptível que só a natureza sabe criar.

Isso me lembra aquela canção do Lenine que diz:

“Eu gosto é do inacabado/O imperfeito, o estragado que dançou/O que dançou…/Que a gente vai, a gente vai/E fica a obra/Mas eu persigo o que falta/Não o que sobra”

Esses versos capturam com precisão o que me fascina na verdadeira arte: não a perfeição técnica, mas as marcas do processo criativo, os acidentes felizes, as pequenas falhas que revelam a mão humana por trás da obra.

Tirinha de Caetano Cury
Tirinha de Caetano Cury (@teoeominimundo)

Recentemente, ao ouvir a versão remasterizada do primeiro álbum do Paralamas do Sucesso, percebi como o excesso de polimento pode tirar o encanto de uma obra. As vozes mais limpas, os instrumentos mais definidos – tudo soava tecnicamente melhor, mas para mim, meio que perdeu aquele “tchan” que dava mais personalidade ao original, essa característica mais lo-fi que faz a coisa parecer mais verdadeira. É como se tivessem tirado as rugas do rosto: ficando mais liso, mas menos expressivo. Confira:

Mixagem de 2023:

Mixagem original:

No desenho, isso também se aplica. O traço irregular de cartunistas como Quino ou Bill Watterson não são falhas a serem corrigidas, mas sim assinaturas visíveis de seu estilo.

Quando comecei a desenhar digitalmente, percebi como as ferramentas de correção automática digitaispodiam “limpar” demais meu traço, tornando-o menos expressivos. Voltei então a me inspirar e experimentar mais nos materiais tradicionais – nanquim, aquarela, lápis de cor – onde cada linha tremida, cada mancha acidental, conta uma história.

desenho de Danilo Yasigui
Desenho que fiz experimentando pincel e nanquim. Adoro a variação imperfeita do traço do pincel.

Em um mundo cada vez mais dominado por imagens pasteurizadas, é um ato de rebeldia (e humanidade) pode ser simplesmente deixar visíveis as marcas das nossas falhas, aquilo que nos tornam humanos.

O trabalho de Quentin Blake é a prova viva de que ausência de virtuosismo técnico não significa ausência de alma. Seus traços soltos, quase rebeldes, suas aquarelas que parecem dançar no papel, carregam uma poesia que nenhuma perfeição artificial conseguiria replicar. Há vida naquelas linhas tremidas, personalidade em cada pincelada que escapa do controle – algo que só alguém com sua bagagem de vida e visão de mundo única poderia criar.

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Ilustração de Quentin Blake

É fácil confundir técnica com qualidade, mas são coisas distintas. Um desenho pode ser tecnicamente impecável e emocionalmente vazio, enquanto outro, aparentemente simples, pode nos tocar profundamente.

Na música, quantos guitarristas conseguem executar solos complexos (a famosa fritação) sem transmitir nenhuma emoção, sendo só expressão de pura técnica? E quantos, com poucas notas bem colocadas, nos arrepiam? (o Guitarrista Santana é um bom exemplo disso). O mesmo vale para o hiperrealismo no desenho – que pode impressionar pela habilidade, mas muitas vezes não comunica nada além do próprio domínio técnico, sem nenhuma interpretação, não diferindo muito de uma fotografia.

Mas no fim, a coisa é subjetiva, e cada um é atraído por coisas diferentes, e aí que eu lembro da frase do poeta Manoel de Barros: “Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.”

Esse encantamento nasce justamente da relação íntima entre artista e processo criativo. Cada decisão – o que incluir, o que deixar de fora, onde ser preciso, onde sugerir – revela um pensamento, uma história pessoal.

Por fim…

É essa humanidade que falta nas criações de IA. Por mais impressionantes que sejam visualmente agradáveis, elas carecem daquilo que torna a arte verdadeiramente significativa: as marcas do processo, os acidentes felizes, as soluções criativas nascidas da limitação, de saber que tem alguém humano por trás tomando decisões que influenciam no resultado final.

O verdadeiro perigo das ferramentas de IA não está em sua existência, é claro, mas em como estamos escolhendo usá-las, e reconheço que ela pode ser muito útil para auxiliar em diversos processos, eu mesmo usei para me ajudar a corrigir partes desse texto, por exemplo . No entanto, em vez de servirem para ampliar nossas capacidades criativas, estão sendo projetadas e utilizadas, para substituí-las. E no processo, podemos estar perdendo de vista o que há de mais valioso em fazer arte: que é o próprio fazer.

Além das questões éticas e trabalhistas óbvias, entre várias outras questões, há uma perda cultural mais sutil em jogo. Quando valorizamos apenas o produto final e desprezamos o processo, estamos dizendo às novas gerações que o esforço, a paciência e a dedicação necessários para dominar uma habilidade não importam – basta digitar uns comandos e pressionar o botão e aguardar os resultados.

Mas acredito que arte o fazer artístico, na unha, resistirá. Porque no fundo, o que nos move a criar não é tão somente o desejo de perfeição, mas a necessidade de expressão. Continuaremos desenhando, pintando, compondo – não por teimosia, mas porque essa é uma das formas mais antigas e profundas que encontramos para dizer: “Eu existo, eu sinto, eu vejo e interpreto o mundo desse jeito aqui ó”. E enquanto houver um traço tremido numa folha de papel, uma nota que escapa ligeiramente do tom, uma mancha de tinta onde não deveria estar – aí estará a prova de que a arte continua viva, humana e belamente imperfeita.


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