O encanto das coisas que não se explicam

Do desconforto diante do surrealismo à busca por outras formas de fazer quadrinhos

Esses dias, eu e meu amigo Rodrigo, estávamos discorrendo sobre os filmes do Studio Ghibli e acabamos falando sobre O Menino e a Garça, e o quanto ele dividiu opiniões. Muita gente gostou justamente pelo aspecto mais surrealista dele.

Nos filmes do Hayao Miyazaki vira e mexe aparece esse lado mais surrealista, mas normalmente existe um fio condutor na narrativa. As peças vão se encaixando e, no final, conseguimos montar um todo coerente. Já em O Menino e a Garça a coisa fica um pouco diferente, porque ele é mais experimental, mais simbólico, mais surrealista mesmo.

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Cena do filme O Menino e a Garça

Eu estava comentando que tive um pouco de dificuldade com o filme. Embora tenha gostado bastante dele pelo aspecto visual e pela experiência imersiva, ainda mais vendo no cinema, que impacta muito mais pelo tamanho da tela, pelo som entre outras coisas.

Mas, no aspecto da narrativa, ele me gerou um certo desconforto. Eu ficava querendo encaixar as peças e não conseguia encaixar direito. Talvez seja um filme que peça mais de uma assistida, para ir percebendo melhor as camadas e as relações entre as coisas.

Depois dessa conversa com o Rodrigo, fiquei refletindo mais sobre isso. Eu tinha comentado que gosto de coisas mais surrealistas, especialmente em filmes, mas que quando o negócio fica “too much”, muito intenso nesse aspecto, isso acaba me gerando um certo desconforto. Porque surge essa gana de tentar montar começo, meio e fim na cabeça, traçar uma linha cronológica, conectar os pontos. E, quando não consigo conectar direito, aquilo me gera uma certa tensão interna. Fico pensando: “tá, isso aqui não conecta… isso aqui não faz sentido”.

E não que algo não fazer sentido seja necessariamente ruim, mas esse estranhamento provoca um incômodo. Existe uma tendência de querer fechar as pontas, encontrar uma lógica clara, organizar a experiência dentro de uma estrutura compreensível.

Ao mesmo tempo, a graça de muitas coisas está justamente aí: em não entregar tudo de mão beijada. Em deixar pontas soltas, em deixar interpretações em aberto. A própria vida é assim. Nem sempre existe um começo, meio e fim bem resolvido. Essa coisa do “viveram felizes para sempre”, tão comum nos contos de fada, às vezes é até meio alienante. A realidade costuma ser muito mais cheia de brechas, ambiguidades e caminhos possíveis.

Já fui mais afeito a coisas não óbvias

Isso me fez lembrar de uma época em que eu era muito mais voltado para poesia. Eu gostava bastante de poemas que às vezes não tinham uma solução ou uma interpretação simples. Gostava muito dos poetas concretos, como Décio Pignatari, e também do Arnaldo Antunes. Aliás, ainda gosto.

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Poema de Arnaldo Antunes

Muitas vezes os caminhos poéticos, as coisas colocadas em palavras, não tinham uma solução óbvia. Não era algo do tipo “tá, o que exatamente está acontecendo aqui?”. Mesmo assim, aquilo gerava um certo encantamento meio invisível. Era mais sobre sentir a coisa do que necessariamente entender com a mente.

E percebo que muita coisa que tem esse aspecto mais surreal, mais nonsense, carrega exatamente isso. É algo que exige uma certa co-criação. Quem entra em contato com a obra acaba adicionando o próprio tempero, porque, já que ela não entrega uma mensagem muito direta, cada pessoa completa de acordo com o seu repertório.

De certa forma, toda obra funciona um pouco assim. Mas em coisas mais surrealistas ou nonsense, que não dão tudo de mão beijada, isso acontece com mais intensidade. Ou seja, também existe um trabalho do lado de quem lê ou assiste: imaginar possibilidades, desenvolver sentidos, explorar o que aquilo pode ser ou poderia significar.

Isso me faz pensar também no quanto existe uma certa aversão pra maioria das pessoas a finais abertos. Talvez justamente por causa desse desconforto cognitivo, e até por uma certa preguiça mental. Muitas vezes se espera que as coisas sejam entregues de forma direta, quase como um fast food narrativo.

Às vezes a intenção é simplesmente assistir algo para se entreter, para se distrair, porque a cabeça já está cheia e o cansaço bate. Então surge a busca por algo que não exija muito esforço mental. E isso também é válido, claro.

Mas esse hábito pode acabar tornando o público meio avesso a obras que exigem mais. Mais entrega, tanto cognitiva quanto emocional. Obras que fogem das soluções mais óbvias, que pedem uma participação maior de quem está ali diante delas.

E como isso se reflete nas minha produção autoral

E toda essa reflexão também acabou me levando a pensar na forma como eu faço minhas tiras, minhas tirinhas, meus quadrinhos em geral. Tenho estado um pouco insatisfeito em explorar sempre uma certa formulazinha de tirinha de humor, aquela lógica de setup e punchline da escrita de comédia. Às vezes parece que a coisa fica meio chata de se fazer.

É curioso pensar nisso, porque eu gosto de humor. Mas, ao mesmo tempo, sinto vontade de explorar outras formas de fazer. Criar situações engraçadas de um jeito menos óbvio. Às vezes algo que provoca só um riso de canto de boca, não necessariamente uma grande sacada.

Vejo muito isso nas tiras do Charles M. Schulz em Peanuts. Muitas vezes não é uma “puta piada”. Se alguém fosse simplesmente narrar a tirinha, talvez ela nem tivesse tanta graça. Mas lendo ali, dentro do ritmo e do contexto, aparece algo sutil que funciona. Algo meio encantador.

Também penso em quadrinhos que não têm uma proposta tão clara ou um entendimento tão fácil, como algumas tiras da Laerte Coutinho. Mas um exemplo que sempre me vem à cabeça é Macanudo, do Liniers. Ele trabalha numa linha que eu acho que é a que mais me identifico: às vezes humor, às vezes algo mais surrealista, às vezes algo mais poético. Em alguns momentos é algo fácil de entender; em outros, algo mais sutil, mais contemplativo.

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Macanudo por Liniers

E fico pensando que gostaria de explorar mais esse lado mais surreal e poético também. Não ficar tão dependente da piada. Já tenho meio que deixado de lado aquela ideia de trabalhar apenas com temas que gerem identificação imediata com o público, e fazer também coisas que realmente tenho vontade de fazer.

Já que é um projeto autoral, é expressão da minha criatividade. Eu não ganho dinheiro com isso, pelo menos por enquanto, então não faz muito sentido moldar tudo apenas pelo engajamento, pelo que pode dar certo, pelo que pode gerar hype ou identificação.

Quero fazer também aquilo que eu quero fazer.

Porque essa dependência de querer agradar pode acabar matando a criatividade. Algo que poderia ser interessante, inovador e, no mais, uma expressão genuína da gente mesmo, acaba não acontecendo.

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Essa uma das minhas tirinhas que fiz recentemente. Adoro ela, tem uma piadinha, mas tem essa construção mais fantasiosa, surreal, que me encanta. Algo simples, belo e singelo

Bom, essa talvez seja mais uma etapa da minha vida como artista, como quadrinista, como cartunista, digamos assim, em que começo a rever certas coisas que já fiz. E, de certa forma, dentro de mim sempre existe um ímpeto de querer explorar novas possibilidades.

Quando fico repetindo muitas vezes alguma forma ou algum jeito de fazer as coisas, tenho uma tendência a me entediar. Talvez venha daí também minha dificuldade de trabalhar com personagens ou temas muito fixos. Minha cabeça é muito aleatória, vai para diversos cantos.

Não consigo me fixar em um tema ou em um único jeito de fazer as coisas, em fórmulas. Existe essa necessidade de explorar novos caminhos.

Então, vamos ver o que surge por aí.


Por enquanto é isso

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