
Acabei de ler a biografia de Charles Schulz, o criador de Peanuts, escrita por David Michaelis, e embora tenha gostado da leitura, que é até bem extensa (são quase 600 páginas) terminei com uma sensação agridoce na consciência. Foi fascinante conhecer a trajetória de um dos cartunistas mais bem-sucedidos da história, entender suas inspirações e o impacto imenso de seu trabalho. Mas, ao mesmo tempo, é melancólico perceber que, apesar de todo o reconhecimento e sucesso, Schulz carregou consigo uma baixa autoestima persistente e uma angústia que nunca conseguiu aliviar por completo.
A impressão que fica é de que ele nunca desfrutou plenamente de tudo o que conquistou, como se o brilho de sua obra não tivesse sido suficiente para iluminar suas próprias sombras.

A todo momento, Schulz questionava sua importância no mundo e por mais que houvesse tantas demonstrações de afeto ao seu redor, ele se sentia apequenado, insuficiente. Mesmo diante de um sucesso colossal, continuava carregando uma insegurança corrosiva, como se nunca tivesse sido o bastante. O curioso é que, no que se referia ao trabalho como cartunista, ele era um tanto seguro de si, beirando a arrogância. Segundo a biografia, Schulz se achava superior aos colegas de profissão e mantinha um alto nível de competitividade, chegando a menosprezar outros cartunistas que não atingiam o mesmo nível de refinamento técnico e sensibilidade narrativa que ele.
As Raízes da Insegurança
O sucesso de Schulz foi uma faca de dois gumes: de um lado, a aclamação pelo seu trabalho validava seu talento e o colocava no topo do mundo no que se refere ao sucesso comercial de seus personagens; do outro, esse mesmo reconhecimento não preenchia o vazio emocional que o acompanhava desde a infância.
O autor da biografia faz um ótimo trabalho ao mapear essa insatisfação crônica de Schulz, traçando suas raízes desde a infância, em um ambiente familiar marcado pela escassez de afeto e validação emocional. Schulz cresceu em meio a uma dinâmica onde suas emoções pareciam não encontrar espaço, e essa carência afetiva moldou profundamente sua visão de mundo e sua relação consigo mesmo.
A “criança ferida” dentro dele nunca recebeu tratamento, nunca encontrou um acolhimento real. Em vez disso, a dor da rejeição e da insegurança se sedimentou ao longo dos anos, tornando-se parte de sua identidade. Essa lacuna emocional transbordou para sua vida adulta, refletindo-se em sua baixa autoestima, em sua constante busca por reconhecimento e até mesmo na melancolia que permeia tantas de suas tirinhas. Para agravar, ele perdeu a mãe ainda jovem, logo após entrar na vida adulta, um luto que nunca chegou a ser realmente elaborado.
A Arte Como Espelho e Refúgio
A ironia é que, enquanto Schulz criava personagens que expressavam as angústias e dilemas do cotidiano de forma brilhante, ele próprio parecia incapaz de elaborar seus próprios sentimentos de maneira construtiva. Sua obra acabou sendo, ao mesmo tempo, um espelho e um esconderijo: um lugar onde suas dores encontravam voz, mas onde ele próprio nunca conseguiu se libertar delas.
Nos últimos anos de vida, ele se tornou cada vez mais saudosista, revisitando constantemente suas memórias de infância, como se buscasse ali um refúgio ou uma explicação para o que sentia. Mas, ao invés de encontrar conforto, parecia se prender ainda mais às dores do passado. Em vários momentos da leitura, eu me pegava pensando: “Vai pra terapia, Schulz!” E o mais curioso é que algumas pessoas realmente tentaram sugerir isso para ele ao longo da vida. Mas ele sempre recusava, com a justificativa de que terapia poderia arruinar seu talento para as tiras. Como se tratar suas feridas emocionais fosse esvaziar a fonte de sua criatividade.

Isso me fez pensar no quanto, às vezes, romantizamos o sofrimento como parte inseparável da arte. Existe essa ideia de que o artista precisa ser atormentado para criar algo profundo. Mas será que realmente precisa ser assim? Schulz é um exemplo de alguém que transformou sua melancolia em um trabalho genial, mas ao custo de carregar esse peso até o fim da vida.
Curiosamente, Peanuts nunca foi uma das minhas maiores referências no que se refere a também querer me aventurar a fazer tirinhas. Outras obras e autores tiveram mais influência nesse processo, como Calvin e Haroldo, do Bill Watterson, as obras do Quino, Fernando Gonsales, as tirinhas da Recreio, do Jean Galvão, e outros contemporâneos meus, como Will Leite, autor de Dona Anésia.
Meu contato com Peanuts aconteceu de forma esparsa—às vezes, em livros didáticos, ou em jornais que chegavam em casa não para serem lidos, mas para forrar alguma coisa ou acender o fogão a lenha. Eu sabia que os personagens existiam, mas não os acompanhava de fato. Só fui realmente apreciar a obra quando encontrei um blog que reunia tirinhas antigas.

Foi aí que descobri algo curioso: nas tiras do começo dos anos 1950, Charlie Brown ainda não era esse menino marcado pela autodepreciação. Pelo contrário, era mais divertido, até aprontava umas peças de vez em quando. O tom geral das histórias era mais leve, mais voltado para o humor do que para a reflexão existencialista. Achei fascinante perceber essa transformação na obra ao longo dos anos. É como se Schulz, à medida que envelhecia e se afundava cada vez mais na melancolia, fosse injetando esse sentimento nas suas criações.
Acho que por isso sempre gostei mais de Calvin e Haroldo—me identifico mais com essa pegada irreverente, acredito que por remeter mais a minha própria infância. Quando conheci esse Charlie Brown um pouco mais bon vivant, lá dos tempos áureos fiquei apaixonado pelo personagem. Ele tinha um charme que depois se perdeu no peso da sua própria tristeza. Lembro que, inspirado por isso, até tentei criar minha própria turminha de garotos, esbocei personagens e fiz algumas tirinhas, mas minha criatividade na época ainda era meio travada e não levei o projeto adiante.
Quando comecei a ler as tirinhas de Peanuts na fase mais melancólica, percebi que muitas delas giravam em torno da autodepreciação de Charlie Brown. Esse tom, inicialmente, pareceu uma maneira honesta e até divertida de explorar os dilemas e inseguranças do personagem, algo que muitos de nós conseguimos nos identificar. Porém, à medida que continuei lendo, especialmente centenas de tiras com esse mesmo enfoque, comecei a sentir um certo peso. A constante recorrência desse tom de autocrítica e desânimo, que inicialmente podia ser encarado como uma representação genuína das lutas internas de Charlie Brown, acabou me deixando um pouco para baixo também

Claro que foi esse tom melancólico e existencialista que elevou o trabalho de Schulz a patamares inimagináveis. Ele conseguiu atingir um público que antes ignorava as tiras, considerando-as bobinhas. De repente, Peanuts não era só entretenimento; era um espelho da condição humana, um espaço para refletir sobre a vida e suas frustrações. Schulz conseguiu fazer algo que poucos cartunistas fizeram: transformar uma tirinha em algo universal, que ressoava com crianças e adultos de maneiras diferentes.
Dito isso, é verdade que Peanuts não se resume à melancolia. Assim como o humor do próprio Schulz, as tirinhas oscilam bastante o tom. Snoopy, por exemplo, trazia mais leveza e entusiasmo, e ao longo do tempo, fui criando mais afeição por ele. Como a maioria dos leitores das tiras, aliás. Tanto que o Snoopy acabou ficando mais conhecido e relevante do que o próprio Charlie Brown. O cachorro sonhador, com sua imaginação infinita, parecia representar um lado mais solto e espontâneo de Schulz—um lado que ele talvez não conseguia expressar tão facilmente em sua própria vida interior.

E, se eu for pensar bem, eu mesmo conheci o Snoopy antes do Charlie Brown. Lembro que, ainda uma criança remelenta brincando na banheira, minha mãe lavava meu cabelo com um shampoo do Snoopy. Talvez tenha sido o meu primeiro contato com Peanuts, mesmo sem saber.
Ao terminar de ler a biografia de Schulz, ficou pra mim uma moral evidente (e nem um pouco nova): ter todo o sucesso externo em vida não é garantia de uma existência plena e realizada. Muito pelo contrário, se o mundo interno está em desajuste, nada do lado de fora consegue realmente compensar. Isso é algo que tenho bem claro, tanto pela experiência pessoal com a meditação quanto pelo contato com a filosofia oriental. Cuidar do mundo interno é tão essencial quanto zelar pelo externo.
Fiquei um pouco triste ao perceber que, no fim da vida, Schulz carregava tanto pesar e uma certa angústia. No fundo, eu queria que o autor daquelas tirinhas que me divertiram em algum momento, tivesse vivido de forma mais plena. Não uma vida perfeita—porque a vida tem altos e baixos—mas, pelo menos, com um saldo mais positivo.
O Legado de Schulz
É impressionante olhar para tudo o que Peanuts se tornou externamente: um fenômeno comercial gigantesco, recordes de popularidade, um sucesso financeiro e um reconhecimento avassalador. É de cair o queixo pensar que uma simples tirinha de jornal chegou tão longe. Mas, ao analisar a história de Schulz pelo viés mais interno, a impressão que fica é outra. Parece que, apesar de tudo, ele não evoluiu muito em vida—como se tivesse permanecido preso a feridas não curadas, carregando consigo um lastro de frustrações que nunca encontrou resolução.

A tirinha foi, ao mesmo tempo, sua maior realização e seu refúgio. Durante 50 anos, Schulz se dedicou intensamente a ela, sem nunca tirar férias, sem nunca delegar a arte ou o roteiro a ninguém. Só parou quando foi completamente incapacitado por um câncer no cólon, descoberto de forma inesperada. Pouco tempo depois da publicação da última tira, ele faleceu.
Essa dedicação extrema à arte pode ter sido tanto um motor quanto uma prisão. Criar Peanuts deu sentido à vida de Schulz, mas também o consumiu. Ele conseguiu transformar sua dor em uma obra grandiosa, mas nunca pareceu se libertar dela.
Apesar da enorme dedicação de David Michaelis ao escrever a biografia de Charles Schulz, com o apoio e colaboração da própria família do autor de Peanuts, a obra não foi bem recebida pelos membros da família. Os filhos de Schulz expressaram seu descontentamento, alegando que a narrativa pintava seu pai como uma figura excessivamente melancólica, o que contrastava com a imagem de um homem alegre e divertido que eles lembravam de sua convivência.
No entanto, essa não é uma visão unânime. De acordo com a biografia e o depoimento de outras pessoas, incluindo colegas e amigos de Schulz, o criador dos famosos personagens do Peanuts realmente carregava o estigma de ser uma pessoa de temperamento mais melancólico e, em alguns momentos, depressivo.
É importante refletir sobre a complexidade da relação entre filhos e pais, pois muitas vezes somos inclinados a idealizar os nossos genitores, colocá-los em um pedestal, como figuras heroicas e infalíveis. Essa visão idealizada pode levar a uma distorção do entendimento sobre quem realmente são.
Além disso, é comum que, como seres humanos, busquemos esconder nossas feridas emocionais sob uma máscara social. Apresentamos para o mundo uma versão de nós mesmos que demonstra que tudo está bem e sob controle, mesmo quando, internamente, a realidade é bem diferente.
A biografia de Michaelis, ao expor as camadas mais profundas e contraditórias de Schulz, acaba revelando uma face menos conhecida, mas igualmente importante, da vida e da obra desse ícone da cultura pop.
De qualquer forma deixo abaixo a minha singela homenagem a essa obra que tanto foi influente na história dos cartuns

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